Voçê não Conheçe o Jack

Uso este blog para pra postar coisas sobre tecnologia, mas de vez em quando vou postar assuntos off-topic. Este é o primeiro post desta categoria.

Acabo de assistir um filme chamado “Você não conheçe o Jack”, neste link tem informações sobre o filme, e aqui esta o trailer

Quem foi Kevorkian

O filme trata da história de Jack Kevorkian, um médico patologista que na década de 90 ficou conhecido como “Dr. Morte”, isso porque Kevorkian ajudava seus pacientes a se suicidarem, uma pratica conhecida como suicídio assistido ou eutanásia.

Eu ainda lembro dos noticiários aqui no Brasil falando do caso , de fato, a história de Kevorkian chocou o mundo, mas porque? se provavelmente ele não foi o primeiro, e não vai ser o último a fazer isso? Assistindo o filme eu achei a resposta para esta pergunta. Kevorkian não só praticava isso como defendia a ideia ao seu limite, pra ele, cabe ao indivíduo decidir se quer acabar com seu sofrimento, não ao estado.

Além disso, Kevorkian ajudou 130 pacientes a cometerem suicídio, todos os paciente eram consultados, as famílias entrevistadas, tudo era documentado com detalhes e o ato da eutanásia registrado em vídeo. Ele concedeu uma entrevista ao famoso documentário 60 minutes, este documentário mostra inclusive a morte de um dos seus pacientes.

Ao contrário do que muitos pensam, Kevorkian não apenas injetava algo no paciente para matá-lo, isso seria assassinato, quando Kevorkian atendia um paciente que queria abreviar sua dor, o caso do paciente era entendido com um todo e havia uma discussão entre paciente médico e família sobre a certeza de se cometer suicídio. O próprio Kevorkian disse que 95% dos pacientes que o procuram foram recusados, isso porque o caso deles refere-se à outra patologia que pode ser tratada e não resolvida com eutanásia. O próprio filme retrata muito bem essa situação.

 

Tá, e daí?

Dai que eu sempre quis entender porque é tão incomodo colocarmo-nos no lugar do outro, tentar entender seus problemas, etc. e este filme é daqueles que te obriga a exercitar isso, te faz pensar, o filme te obriga a se colocar no lugar de alguns dos personagens, o doutor, o advogado de defesa, o advogado de acusação, a juíza, o juri, o melhor amigo do doutor, a irmã dele, etc.

Este filme mostra o que o médico fazia e como fazia, mostra também sua luta nos tribunais tentando mostrar que ele não era um assassino.

Aposto que você ainda esta dizendo pra você mesmo “Haa mas ele não tinha o direito de tirar a vida de ninguém”. Realmente não tinha, e não o fez, ele apenas ajudou pacientes a realizarem algo que realmente queriam ou precisavam.

Vamos lá, pense um pouco, pense agora na pessoa que você mais ama (ou em você mesmo), imagine que esta pessoa possui um doença rara que destrói a musculatura do corpo (não estou inventando isso, essa doença existe e é citada no filme) imagine que esta doença provoca uma dor quase insuportável, não aquela dor momentânea quando você aperta o dedo na porta do carro, mas sim uma dor muito mais intensa a incessante, 24 horas por dia, essa doença priva a pessoa de tudo o que você pode imaginar, até engolir um gole de água é uma tarefa insuportável. Imagine também que o tratamento desta doença é extremamente dispendioso, a família começa a vender tudo que têm para tratar a pessoa, mas o tratamento apenas traz alívio momentâneo e não resolve o problema pois todos sabem que a doença não tem cura e é degenerativa, tenha certeza que alguns médicos vêem isso como uma “mina de ouro”.

Mas e ai? O que você faz? Decide ai. A decisão é sua!

Sério, não continue lendo, de uma volta e pense um pouco, mas pense DE VERDADE, deixa de ser covarde e se coloque um pouco no lugar do outro, que você faria neste caso? que atitude tomaria?

 

Difícil né?

É muito difícil, mais difícil ainda deve ser a posição do Doutor que entendia a dor do outro, o ajudava e encarava as consequências e os tribunais. Você teria colhões como ele? Se uma coisa que esse médico tinha é coragem, após os primeiros paciente auxiliados por ele morrerem e virarem notícia, foi criada uma lei que proibia as pessoas de fornecerem, conscientemente, meios para que outra pessoa cometa suicídio. Sim, criaram uma lei específica por causa dele. Mesmo com essa lei, ele continuou a praticar a eutanásia em seus pacientes, 130 deles. Acha pouco? Após o noticiário do 60 minutes ir ao ar, Kevorkian foi indiciado novamente, o que ele fez? Dispensou o advogado que o ajudara a ser absolvido nos outros processos. Ele estava convencido de que o que ele fazia não era crime, muito menos uma maldade. Em uma destas cenas Kevorkian diz “quando a lei parece imoral para você, você deve desafiá-la, desobedecê-la”.

O fim da história vocês conhecem, Kevorkian é preso, cumpre 7 ou 8 anos e ganha liberdade condicional, morre em 2011.

Kevorkian marcou a história porque o que ele fez foi esfregar na nossa cara um assunto que nós fazemos questão de evitar, evitamos porque como eu disse, é muito difícil colocar-se no lugar do próximo. Prova disso é que desde a morte dele este assunto nunca mais foi colocado em debate.

Mas o importante nisso tudo não é a minha ou sua opinião sobre se o que o médico fez é certo ou errado, o importante aqui é a reflexão, pensar, colocar-se no lugar do outro, ou ainda, nos perguntarmos, até onde iríamos para defender aquilo que achamos certo?

 

 

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    Esqueci de comentar algo que no filme passa meio despercebido, Kevorkian é condenado porque os advogados de acusação acharam uma brecha, onde os familiares da pessoa que morreu não poderiam depor.
    O fato é que o caso gerou tanta repercussão que os advogados da época, “brigavam” entre si para processarem Kevorkian pois isso lhes renderia uma boa “fama”.